Pontes em situação crítica expõem fragilidade da infraestrutura e ameaçam rotas de escoamento da produção no Tocantins
As principais rotas utilizadas para transportar a produção agrícola e pecuária do Tocantins convivem com um problema que vai muito além das condições das rodovias: pontes com problemas estruturais, estruturas interditadas, tráfego restrito e até obras construídas há décadas que nunca chegaram a cumprir sua finalidade.
O cenário preocupa não apenas pela possibilidade de novos prejuízos à cadeia do agronegócio, responsável por movimentar grande parte da economia tocantinense, mas também pelos riscos à vida de motoristas, passageiros, estudantes e moradores que dependem dessas estradas diariamente.
As pontes são pontos estratégicos da malha rodoviária. Quando uma delas é interditada ou precisa operar com restrições, o impacto se espalha por toda a cadeia logística: caminhões precisam buscar rotas alternativas, viagens ficam mais longas, aumenta o custo do transporte e produtores, empresas e consumidores acabam pagando a conta.
No Tocantins, o problema aparece em diferentes regiões e envolve estruturas de responsabilidades distintas, incluindo o Governo do Estado e o Governo Federal.
A reportagem levantou a situação de cinco pontes consideradas estratégicas e encontrou um cenário que chama atenção.
Ponte de Lajeado: estrutura com menos de 15 anos já apresenta problemas
Um dos casos que mais preocupa é o da Ponte Imigrantes Nordestinos Padre Cícero José de Sousa, sobre o Rio Tocantins, entre Lajeado e Miracema do Tocantins.
Inaugurada em 21 de outubro de 2011, a ponte possui 602 metros de extensão. A obra começou em dezembro de 2009 e recebeu investimento de aproximadamente R$ 95,8 milhões, com recursos do Ministério da Integração Nacional e contrapartida do Governo do Tocantins.
Ou seja: trata-se de uma estrutura com menos de 15 anos de inaugurada.
Recentemente, vídeos divulgados nas redes sociais mostraram rachaduras em uma das cabeceiras e buracos na pista de rolamento, levantando preocupação entre motoristas que utilizam diariamente a ligação entre as duas margens do Rio Tocantins.
A situação chama ainda mais atenção justamente pela idade da estrutura e pelo volume de dinheiro público empregado na construção. O Site questionou o Governo do Tocantins sobre a existência de inspeções técnicas recentes, as condições estruturais da ponte, as providências adotadas para garantir a segurança dos usuários e a possibilidade de manutenção, recuperação ou eventual restrição de tráfego. Não houve qualquer resposta da gestão sobre o caso até a publicação da reportagem.
Pedro Afonso: ponte interditada e corredor do Matopiba afetado
Outro caso de grande impacto ocorre na BR-235, entre Pedro Afonso e Tupirama. A ponte sobre o Rio Tocantins permanece interditada depois que problemas estruturais foram considerados irreversíveis, tornando necessária a construção de uma nova estrutura.
Assim como a ponte de Lajeado, trata-se de uma obra que ainda pode ser considerada relativamente nova, com menos de 20 anos de inaugurada.
A diferença fundamental é que essa ponte não é de responsabilidade do Governo do Tocantins. A estrutura está localizada em uma rodovia federal e a responsabilidade pela solução é do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), órgão do Governo Federal.
A interdição, porém, produz efeitos diretamente no Tocantins.
A passagem de veículos passou a depender de balsas, criando dificuldades para moradores, transportadores e produtores e afetando um dos corredores utilizados para o escoamento da produção do Matopiba, região que reúne áreas de forte produção agrícola no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
Nesse caso, ainda que não seja responsável pela obra, o Governo do Tocantins pode — e deveria — atuar politicamente junto ao DNIT e ao Governo Federal para cobrar celeridade na reconstrução da ponte, diante dos prejuízos econômicos e dos transtornos provocados pela interdição.
O Governo do Estado também foi questionado sobre quais medidas estão sendo adotadas junto ao DNIT para reduzir os impactos da interdição e se existe alguma previsão para o início da reconstrução, mas, não resposta da Secretaria da Comunicação do Estado.
Ponte sobre o Rio do Sono tem limite de 16 toneladas
Na TO-020, entre Novo Acordo e Lizarda, outro problema envolve a ponte sobre o Rio do Sono. A Agência de Transportes, Obras e Infraestrutura (Ageto) estabeleceu restrição para veículos com até 16 toneladas e largura máxima de 3,25 metros.
O problema é que a reportagem constatou que veículos acima do limite continuam utilizando a estrutura, o que levanta questionamentos sobre a fiscalização e, principalmente, sobre a segurança da ponte. A estrutura é estratégica para a região. Além do transporte da produção agrícola de municípios como Lizarda e Rio Sono, a rodovia é utilizada por ônibus e outros veículos que fazem a ligação entre diferentes municípios, incluindo Alto Parnaíba (MA) e Novo Acordo, dentre outros.
Quando uma ponte precisa operar sob restrições de peso, o problema deixa de ser apenas de engenharia. Ele passa a ser também logístico e econômico.
Caminhões de maior capacidade ficam impedidos de utilizar a estrutura ou precisam adotar alternativas, aumentando custos e dificultando o transporte da produção.
Perguntamos o Governo do Tocantins sobre o ano de construção da ponte, o custo da obra, a origem dos recursos, a fiscalização das restrições e a existência de previsão para construção de uma nova estrutura. Também foram solicitadas informações sobre o valor estimado de uma nova obra e eventual cronograma de execução, mas a exemplo das demais pontes, o Governo do Tocantins também não respondeu.
Ponte do córrego Formosa: rachaduras e armaduras expostas
Na mesma região, entre Novo Acordo e São Félix do Tocantins, a situação da ponte sobre o córrego Formosa, na TO-030, também preocupa. A estrutura apresenta rachaduras, armaduras expostas e erosão em uma das cabeceiras.
O problema já havia sido mostrado pelo D12News há cerca de um ano e, segundo o levantamento realizado pela reportagem, permanece sem uma solução definitiva.
A exposição das armaduras é especialmente preocupante porque representa deterioração do concreto e pode acelerar processos de corrosão e comprometimento da estrutura, dependendo da extensão e da gravidade dos danos.
Diante disso, a reportagem questionou, mais uma vez, o Governo do Tocantins sobre a existência de laudo técnico atualizado, a necessidade de recuperação ou substituição da ponte e o cronograma para eventual intervenção. Não houve resposta.
Ponte construída há décadas nunca foi utilizada
Talvez o caso mais emblemático da falta de solução definitiva esteja também na TO-030. Entre Novo Acordo e São Félix do Tocantins existe uma ponte sobre o córrego Lajeado construída há mais de duas décadas, mas que nunca entrou efetivamente em operação.
O motivo é tão básico quanto revelador: os acessos à ponte, com os respectivos aterros, não foram concluídos. Enquanto uma estrutura construída com dinheiro público permanece sem cumprir sua finalidade, os veículos continuam utilizando uma passagem improvisada.
É uma situação que simboliza o desperdício provocado pela falta de planejamento ou pela ausência de conclusão de obras de infraestrutura.
O Site já havia buscado informações sobre a estrutura, inclusive por meio da Lei de Acesso à Informação, mas não obteve resposta.
Nesta nova tentativa, a reportagem questionou o Governo sobre o ano de construção, o custo da obra, a origem dos recursos, eventual impedimento técnico, administrativo ou judicial e se existe intenção de concluir os acessos e colocar a ponte em funcionamento.
Também foi solicitado um eventual cronograma e previsão orçamentária para solucionar definitivamente o problema. Mais uma vez, o Governo do Tocantins não respondeu.
O custo da falta de pontes
A situação dessas estruturas revela um problema que não pode ser tratado apenas como uma questão de manutenção rodoviária. O Tocantins depende exclusivamente de suas rodovias para transportar soja, milho, gado e outros produtos agrícolas, além de insumos utilizados no próprio processo produtivo.
Restrições como essas, para quem vive no campo, podem significar uma diferença importante na rentabilidade da produção. Para os transportadores, representa aumento de custos. Para a população, significa viagens mais demoradas, dificuldade de acesso a serviços e, em determinados casos, exposição a estruturas que já apresentam sinais de deterioração.
Os prejuízos não ficam restritos ao produtor. Eles percorrem toda a cadeia: produtor, transportador, indústria, comércio e consumidor.
Estruturas novas, problemas antigos
Outro ponto que chama atenção é a idade de algumas das estruturas. A ponte de Lajeado foi inaugurada em 2011 e tem menos de 15 anos.
A ponte de Pedro Afonso, interditada e com necessidade de reconstrução, também foi inaugurada há menos de 20 anos.
São estruturas que, diante de sua importância estratégica e dos investimentos públicos realizados, não deveriam estar chegando tão rapidamente a uma situação que exige intervenções de grande porte.
A questão que fica é inevitável:
Como obras de infraestrutura consideradas estratégicas chegam a apresentar problemas tão graves em tão pouco tempo?
É uma pergunta que exige respostas técnicas, transparência sobre os projetos executados, fiscalização das obras, manutenção preventiva e, principalmente, planejamento de longo prazo.
O silêncio do Governo do Tocantins
Para esta reportagem, o D12News encaminhou questionamentos à Secretaria da Comunicação do Governo do Tocantins (Secom) sobre as pontes de Lajeado, do Rio do Sono, do córrego Formosa e do córrego Lajeado.
Também foi questionada a atuação do Estado diante da interdição da ponte de Pedro Afonso, que é de responsabilidade federal. Foram solicitadas informações sobre laudos técnicos, inspeções, custos das obras, manutenção, fiscalização, previsão de novas pontes, cronogramas e medidas adotadas para garantir a segurança dos usuários e reduzir os impactos econômicos e logísticos.
O que diz o DNIT
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) confirma a informação de que será construída uma nova ponte sobre o Rio Tocantins, na BR-235, em Pedro Afonso (TO).
No mês de julho, a autarquia concluiu o relatório técnico do conjunto de investigações técnicas sobre a estrutura existente, quando foi identificado um comportamento atípico da ponte. Diante disso, o tráfego sobre a travessia foi totalmente interditado, condição que ainda está em vigor.
À época, identificou-se que o concreto das fundações dos dois apoios centrais está acometido por duas reações químicas internas, conhecidas pelos engenheiros como reação álcali-agregado e formação de etringita tardia. Em termos simples, é um problema irreversível e a única solução é a substituição.
Com base nessas conclusões e nos critérios técnicos do Programa de Reabilitação de Obras de Arte Especiais (PROARTE), o DNIT adotará como diretriz a reconstrução da ponte. Informações técnicas, investimentos e prazos precisam, ainda, aguardar a constituição de um projeto para a nova ponte.
Enquanto houver restrições na ponte antiga, reiteramos que a fiscalização será feita de forma rigorosa, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal. Os motoristas devem seguir pelas rotas alternativas previamente divulgadas.
Por fim, reafirmamos nosso compromisso com a transparência e asseguramos que todas as decisões sobre a travessia foram e continuarão sendo tomadas com base em critérios estritamente técnicos, apoiadas em ensaios realizados por instituições de referência nacional, e serão comunicadas com transparência à população.
Governo do TO acionado
A reportagem demandou a Secom do Tocantins no dia 3 deste mês e informou que a matéria seria publicada após as 14h30, do dia seguinte, dia 4, e que eventual resposta da gestão poderia ser incorporada posteriormente por meio de atualização, Mas, até a publicação, porém, o Governo do Tocantins não havia dado qualquer resposta.
*Matéria atualizada às 12h48 com a reposta do DNIT