Bélgica cala Trump, faz o que a FIFA não fez e mostra que a Copa do Mundo não tem dono
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, descobriu da forma mais amarga que existe uma fronteira onde nem quem se acha o “dono do mundo” consegue mandar: as quatro linhas de um campo de futebol.
A Bélgica fez o que faltava alguém fazer. Aplicou um sonoro banho de realidade. E, de quebra, derrotou não apenas a seleção americana, mas também o ego de Trump que acreditou que um telefonema poderia mudar o rumo da seleção de seu País na Copa do Mundo.
Dias antes da partida, Trump admitiu que ligou para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, pedindo a revisão da expulsão do atacante Folarin Balogun, que havia recebido cartão vermelho do árbitro brasileiro Raphael Claus na partida contra a Bósnia e Herzegovina. A suspensão acabou sendo revertida, permitindo que Balogun enfrentasse a Bélgica, numa decisão inédita e cercada de críticas.
Faço aqui uma rara defesa de Raphael Claus — e confesso que isso quase me causa desconforto. Nunca escondi que considero a Copa do Mundo um palco acima de seu currículo, com base no que ele faz por aqui. Mas, no episódio da expulsão, Claus e o VAR acertaram. Foi a conclusão de especialistas, ex-árbitros, comentaristas e torcedores ao redor do mundo. Do outro lado estava apenas Trump, aparentemente convencido de que um telefonema vale mais do que as leis do jogo.
O mais curioso é que o próprio Trump confessou que, num primeiro momento, sequer sabia exatamente o que significava um cartão vermelho. Bastou descobrir que tiraria do jogo um dos principais atacantes americanos para resolver ensinar futebol à FIFA.
A lógica parece simples para quem governa acreditando que tudo pode ser resolvido com uma ligação.
Não gostou da decisão do árbitro? Liga para o chefe.
Não gostou da regra? Muda a regra.
Não gostou do resultado? Bem... aí apareceu a Bélgica.
Em campo, não havia decreto presidencial.
Não havia ordem executiva.
Não havia tarifa de importação.
Muito menos ameaça diplomática.
Havia apenas futebol.
E futebol continua sendo decidido por quem joga melhor.
A Bélgica respondeu da maneira mais elegante possível: com gols. Sem discursos, sem entrevistas inflamadas e, principalmente, sem precisar telefonar para ninguém. O placar serviu como um lembrete de que nem toda instituição deve se ajoelhar diante do poder político.
Aliás, o maior vencedor da noite talvez nem tenha sido a Bélgica.
Foi o próprio esporte.
Durante décadas ouvimos que política, igreja e futebol não deveriam se misturar. Na prática, isso nem sempre acontece. Mas há uma diferença enorme entre torcer por seu país e tentar influenciar decisões disciplinares depois que o árbitro já aplicou a regra.
Se um presidente consegue telefonar para questionar uma expulsão, amanhã outro poderá querer discutir um pênalti, um impedimento ou até a escalação do adversário.
É justamente essa porta que o esporte precisa manter fechada.
Trump saiu derrotado porque descobriu que existem lugares onde dinheiro, poder e influência encontram um limite chamado placar.
E placar, felizmente, ainda não atende telefone.
No fim das contas, a Bélgica não eliminou apenas os Estados Unidos da Copa.
Eliminou, por alguns instantes, a ilusão de que o dono da Casa Branca também pudesse ser dono do futebol.
Que essa derrota sirva de aviso para todos os líderes que acreditam poder interferir em qualquer esfera da vida pública: no esporte, a autoridade máxima continua sendo a bola rolando e as regras do jogo — não o ocupante de um gabinete presidencial.
Obrigado, Bélgica!