Entre a pedra no rim e o descaso do SUS: a dor que me fez advogar em causa própria

Por Dermival Pereira em 28/09/2026 09:33 - Atualizado em 28/09/2026 09:39
COLUNAS
Entre a pedra no rim e o descaso do SUS: a dor que me fez advogar em causa própria
Foto: Divulgação

Em 18 anos de jornalismo, adotei um princípio: nunca advogar em causa própria. Jamais usei minha profissão para benefício próprio, para desculpar erros ou pedir favores. Sempre defendi o coletivo, a causa maior, mesmo quando a dor batia na minha porta. Mas hoje, quebrei meu próprio legado. Porque o assunto é meu, o sofrimento é meu, o descaso é meu, eu sou o paciente, a vítima dessa engrenagem falida chamada Sistema Único de Saúde (SUS). É assim que o defino, pelo menos no Tocantins.

Minha luta começou em 2021, quando a Covid-19 quase me levou. Meus rins pararam, precisei de diálise. Sobrevivi. Achei que dali para frente viria só a luta pela vida, mas não, veio a “pedra no meio do caminho”. Literalmente. Dois episódios de cálculos renais — a famosa pedra do rim — em 2022 e 2024. No último dia 25, lá estava ela de novo, causando uma dor de matar, daquelas que você ora para Deus ou para que a misericórdia chegue logo, seja de um jeito ou de outro.

Na segunda vez, ao sair para a UPA, olhei para meu filho e juro, pensei que não o veria mais. A dor era essa traiçoeira que rouba até a esperança. Na UPA, a espera virou tortura. Pedi que minha esposa me deixasse deitar no chão, mas ela me segurou nos braços e sentou numa cadeira, até o socorro chegar, com um tramal na veia que trouxe um pouco alívio. Nas duas ocasiões anteriores, pedir por um exame de ultrassom para identificar o tamanho da pedra, fiz particular e voltei ao SUS para mostrar. Me trataram, as pedras saíram.

Desta vez, o que tive? A via-crúcis começou na triagem. A atendente, talvez nem de propósito, me colocou como caso verde, o que, para quem sente uma dor insuportável, é um verdadeiro tapa na cara. Tive que implorar, com lágrimas, para que mudasse para laranja. Só assim fui atendido.

Na consulta, um diálogo que só me fez pensar se eu estava num palco de comédia triste:

— Bom dia, Dr.
— Bom dia, o que houve?
— Cólica renal.
— Já teve antes?
— Sim, duas vezes.

Sem mais delongas, um remédio para a dor e um paracetamol para tomar em casa, e nada de exame. Inseri voz, pedi:

— Dr., pode solicitar um ultrassom? Faço particular, trago aqui.
— Não posso.
— Nas vezes anteriores solicitaram.
— Agora só no posto de saúde.

Era domingo, meio dia. As USFs fecham aos finais de semana.

Fiquei com a porta na mão, fechando-a para o único pedido de ajuda que fiz, pensando: por que um médico a serviço do SUS não pode prescrever um exame tão fundamental? Preguiça? Medo de complicar a burocracia? Falta de estrutura? Gestão ineficiente?

E não para por aí. Na segunda vez, quando a “regulação” do SUS se negou a me encaminhar para um hospital estadual, minha esposa me colocou no carro e levou ao HGP, onde também me dispensaram por falta dessa bendita regulação. Falei nada até agora. Silenciei para não advogar para mim mesmo.

Mas a dor é professora: ensina a gemer, a escancarar a ferida. Hoje eu falo: isso é descaso. Não tratam, não regulam, não pedem exames. Só oferecem um remédio para segurar a dor, como se isso fosse suficiente para salvar vidas ou dignidade.

Enquanto a pedra no rim parece infinitamente maior, o caminho para o tratamento é um labirinto do qual não vejo saída. O SUS promete saúde para todos, mas só entrega sofrimento para muitos.

Esse descaso não é acidente. É uma chaga aberta na saúde pública. Enquanto isso, eu sigo aqui, com a pedra do rim esmagando meu corpo, preso num labirinto que ninguém quer resolver.

Humanizem o SUS. Salvem a nós, homens e mulheres que só pedimos... um pouco de dignidade.


Comentários (0)