Entre a tradição e a crueldade: até quando cavalgadas vão terminar em morte de animais no Tocantins?
A morte de uma mula durante uma cavalgada em Novo Acordo, neste sábado, 23, não pode ser tratada como um simples acidente isolado. Antes dela, em abril de 2024, uma égua agonizou e morreu após a cavalgada de abertura da Expo Gurupi, em um episódio que chocou o Tocantins inteiro. Dois casos em pouco mais de um ano. Dois animais mortos em eventos públicos. E, até agora, praticamente nenhuma mudança concreta.
A pergunta é inevitável: até quando a tradição servirá de desculpa para o sofrimento animal?
As cavalgadas se transformaram, há muito tempo, em grandes vitrines políticas e eleitorais. Em ano pré-eleitoral, o cenário fica ainda mais evidente. Políticos, empresários e grupos econômicos financiam esses eventos milionários, desfilam em carros de luxo, distribuem sorrisos, apertos de mão e aproveitam a multidão para fortalecer projetos eleitorais. O que deveria ser uma manifestação cultural virou, em muitos casos, um palanque antecipado.
Enquanto isso, os animais seguem submetidos a situações absurdas.
Sob sol forte, calor extremo e longos percursos, muitos passam horas sem acesso adequado à água, alimentação ou descanso. Há animais visivelmente cansados, feridos, assustados pelo som automotivo, rojões, fogos de artifício e pelo consumo excessivo de álcool ao redor. A cena se repete ano após ano diante dos olhos de autoridades públicas, organizadores e patrocinadores.
Em Novo Acordo, a mula morreu após se assustar com fogos de artifício. Em Gurupi, a égua caiu agonizando em via pública depois da cavalgada. Nos dois casos, houve comoção momentânea, discursos de solidariedade e promessas veladas de apuração. Mas, na prática, pouco ou nada mudou.
Falta fiscalização séria. Falta planejamento. Falta estrutura veterinária permanente. E, principalmente, falta responsabilização.
É impossível acreditar que eventos desse porte ocorram sem conhecimento prévio das prefeituras, órgãos de fiscalização e forças políticas locais. Muitos gestores municipais ajudam na organização, cedem estrutura pública, apoiam financeiramente ou institucionalmente as cavalgadas. Mesmo assim, quase nunca aparecem exigências rígidas de proteção animal.
O Ministério Público do Tocantins e o Poder Judiciário precisam agir com mais firmeza. Não basta instaurar procedimentos depois que imagens chocantes circulam nas redes sociais. É necessário fiscalização preventiva, acompanhamento em tempo real e punição exemplar para organizadores e responsáveis quando houver negligência ou maus-tratos.
A legislação brasileira já considera crime submeter animais a maus-tratos. O problema é que, quando isso ocorre em nome da “tradição”, muitos preferem fingir que não estão vendo.
Defender cultura popular não pode significar aceitar sofrimento animal como parte do espetáculo. Tradição nenhuma deveria sobreviver às custas da dor, do medo e da morte de animais.
Enquanto políticos seguirem usando cavalgadas como palco eleitoral, empresários tratarem os eventos apenas como promoção social e autoridades permanecerem omissas, novas mortes continuarão acontecendo. E, depois delas, virão as mesmas notas frias, as mesmas promessas vazias e o mesmo silêncio conveniente.
Até a próxima cavalgada. Até o próximo animal morto.