Entre o “santo” do apoio e o milagre que nem sempre acontece: o peso de Wanderlei Barbosa na pré-candidatura de Dorinha ao Governo

Por Dermival Pereira em 11/05/2026 10:48 - Atualizado em 11/05/2026 10:58
POLÍTICA
Entre o “santo” do apoio e o milagre que nem sempre acontece: o peso de Wanderlei Barbosa na pré-candidatura de Dorinha ao Governo
Foto: Divulgação

A possível aliança entre o governador Wanderlei Barbosa (Republicanos) e a senadora Dorinha Seabra Rezende (União Brasil) para as eleições de 2026 levanta uma questão inevitável nos bastidores da política tocantinense: até que ponto o apoio do atual chefe do Executivo estadual ajuda — ou pode atrapalhar — um projeto ao Palácio Araguaia?

Politicamente, Wanderlei mantém força institucional, influência sobre prefeitos, presença regional consolidada e um grupo político estruturado. Na gestão, o governador conseguiu avanços importantes em áreas como infraestrutura rodoviária, atração de investimentos e fortalecimento de programas estaduais. Em diversas regiões, especialmente no interior, ainda conserva capital político relevante.

Por outro lado, o governo enfrenta desgaste em áreas consideradas prioritárias pela população, especialmente na Saúde Pública e na Segurança Pública. Basta percorrer corredores do Hospital Geral de Palmas (HGP) ou de hospitais regionais para perceber que a insatisfação com a rede estadual de saúde segue entre os principais pontos de crítica à atual gestão. Filas, demora na regulação de pacientes com doenças graves, falhas no fornecimento de energia do HGP e dificuldades estruturais continuam sendo alvos frequentes de reclamações e usuários do SUS.

Também pesa negativamente na avaliação do governador o volume de investimentos destinado à realização de shows e eventos artísticos, estimado em quase meio bilhão de reais, enquanto setores essenciais enfrentam dificuldades. Críticos da gestão apontam que, em meio a problemas na saúde e à sensação de fragilidade na segurança pública, os gastos elevados com entretenimento acabam ampliando o desgaste político e administrativo do governo.

Além disso, episódios recentes ampliaram o desgaste político e moral do governador. O afastamento do cargo por decisão judicial e as investigações envolvendo o suposto esquema das cestas básicas colocaram Wanderlei e integrantes de sua família no centro de uma crise política com potencial impacto eleitoral. Mesmo sem condenação definitiva, o ambiente de investigação e exposição pública produz efeitos na imagem do grupo governista.

Nesse cenário, o apoio de Wanderlei à candidatura de Dorinha pode carregar um efeito ambíguo: ao mesmo tempo em que agrega estrutura política, tempo de articulação e influência administrativa, também pode transferir parte do desgaste acumulado pelo governo.

E há um fator recente que reforça a cautela dos aliados: as eleições municipais de 2024.

Mesmo sem o peso das operações policiais e antes do agravamento da crise política atual, o governador não conseguiu transformar apoio pessoal em vitórias eleitorais nas principais cidades do Estado. Embora o Republicanos tenha terminado o pleito como o partido com maior número de prefeitos eleitos no Tocantins, com 56 municípios, as apostas pessoais de Wanderlei sofreram derrotas importantes.

A mais emblemática ocorreu em Palmas. O governador entrou fortemente na campanha da deputada estadual Janad Valcari (PL), que para muitos, já estava eleita, acabou derrotada no segundo turno por Eduardo Siqueira Campos (Podemos). Exemplo parecido com o que aconteceu com o ex-deputado Marcelo Lelis (PV), em 2012, que perdeu para Carlos Amastha, por se aliar ao desgastado grupo de Siqueira Campos.

Em Araguaína, o candidato apoiado pelo governador, Jorge Frederico (Republicanos), perdeu para Wagner Rodrigues (União Brasil). Em Gurupi, Porto Nacional e Paraíso do Tocantins, o grupo político ligado ao Palácio Araguaia também não conseguiu emplacar seus candidatos preferenciais.

O desgaste atingiu inclusive cidades menores do interior. Em Novo Acordo, por exemplo, a então prefeita Deuzani Batista (União Brasil), aliada de Wanderlei, foi derrotada por Mateus Coelho (PSDB).

O retrospecto recente reforça uma leitura que cresce nos bastidores: o apoio do governador pode garantir musculatura política, mas não necessariamente votos suficientes para definir uma eleição majoritária. Em outras palavras, o “santo” do apoio institucional pode existir, mas o “milagre” eleitoral nem sempre acontece.

Para Dorinha, o desafio será equilibrar os benefícios da proximidade com o governo sem absorver integralmente os desgastes administrativos, políticos e jurídicos que cercam a atual gestão estadual. A senadora possui trajetória própria, forte ligação com prefeitos e boa interlocução em Brasília, fatores que podem ajudá-la a construir uma candidatura menos dependente da transferência direta de capital político do governador.

Com o cenário ainda em formação e outros grupos se articulando para 2026, a tendência é que o peso real do apoio de Wanderlei Barbosa só seja medido efetivamente quando a campanha ganhar as ruas, e quando o eleitor decidir se o governo ainda possui força suficiente para conduzir um sucessor ao Palácio Araguaia.

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