Justiça manda prender 23 PMs por chacina em Miracema; Tenente-Coronel ajudante de ordens do governador Wanderlei está entre os presos

Por Redação em 08/05/2026 17:21 - Atualizado em 08/05/2026 17:21
ESTADO/TOCANTINS
Justiça manda prender 23 PMs por chacina em Miracema; Tenente-Coronel ajudante de ordens do governador Wanderlei está entre os presos
Seis pessoas foram assassinadas após morte de policial em Miracema do Tocantins - Foto: montagem

O Colegiado de Juízes da 1ª Vara Criminal de Miracema do Tocantins determinou a prisão preventiva de 23 policiais militares investigados por suposto envolvimento na chamada “Chacina de Miracema”, sequência de crimes que deixou sete mortos, incluindo um idoso com mais de 70 anos, brutalmente assassinado dentro de uma delegacia juntamente com o filho, em 2022. As informações foram publicadas inicialmente pelo portal G1, da Globo, e confirmadas pela reportagem do Site D12News.

Entre os alvos estão militares que ocupam cargos de capitão, major e até tenente-coronel da Polícia Militar, lotado na Casa Militar e atua como ajudante de ordens do Governador do Estado do Tocantins, Wanderlei Barbosa (Republicanos).

Os policiais se apresentaram nesta sexta-feira, 8, na sede do Comando-Geral da PM, em Palmas. A apresentação ocorreu após acordo firmado entre o Ministério Público do Tocantins (MPTO) e o comando da corporação. Em seguida, os investigados foram encaminhados à Delegacia-Geral da Polícia Civil.

Segundo a decisão judicial, os militares são investigados por suposta participação em execuções sumárias, tortura, sequestro, fraude processual e destruição de provas. A Justiça entendeu que a liberdade dos suspeitos representa risco à ordem pública e à instrução criminal, diante da possibilidade de intimidação de testemunhas e ocultação de evidências.

Entenda o caso

Os crimes ocorreram entre os dias 4 e 5 de fevereiro de 2022, após a morte do sargento da Polícia Militar Anamon Rodrigues de Sousa durante um confronto com traficantes em uma plantação de mandioca, na cidade de Miracema do Tocantins.

Horas depois da morte do policial, teve início uma sequência de assassinatos que chocou a população da cidade. Ainda na noite do dia 4, Valbiano Marinho da Silva foi executado a tiros dentro de casa, sob suspeita de envolvimento na morte do militar.

Na madrugada do dia seguinte, Manoel Soares da Silva, idoso com mais de 70 anos, e seu filho, Edson Marinho da Silva, pai e irmão de Valbiano, foram assassinados dentro da Delegacia da Polícia Civil de Miracema após a invasão da unidade por homens encapuzados.

No dia seguinte, outros três corpos foram encontrados no loteamento Jardim Buriti. As vítimas foram identificadas como Aprigio Feitosa da Luz, de 24 anos; Gabriel Alves Coelho, de 21 anos; e Pedro Henrique de Sousa Rodrigues, de 18 anos. Segundo as investigações, os jovens teriam sido sequestrados, torturados e executados. Apenas uma vítima sobreviveu.

Uso da estrutura do Estado

Na decisão, os magistrados Marcello Rodrigues de Ataídes, Renata do Nascimento e Silva e Valdemir Braga de Aquino Mendonça afirmam que os crimes representam uma grave afronta ao Estado Democrático de Direito.

Conforme a investigação da Polícia Civil, os suspeitos teriam utilizado viaturas oficiais, armamentos da corporação e sistemas de comunicação da PM durante as ações criminosas.

A apuração também aponta indícios de destruição de provas, incluindo o recolhimento de HDs de câmeras de segurança de um posto de combustíveis onde vítimas teriam sido abordadas. Posteriormente, os dispositivos teriam sido dados como furtados de uma viatura policial.

Além disso, investigadores identificaram possíveis adulterações em sistemas de rastreamento por GPS de viaturas e desligamentos estratégicos de celulares para ocultar os deslocamentos dos executores.

Oficiais e praças entre os presos

Entre os investigados que tiveram a prisão decretada estão:

• Douglas Luiz da Silva — tenente-coronel e ajudante de ordens do governador;
• Wallas de Sousa Melo — major;
• Yurg Noleto Coelho — major;
• Wilquer Barbosa de Sousa — major;
• Gleiston Ribeiro Pereira — capitão.

Além dos oficiais, outros 18 policiais militares, entre tenentes, sargentos, cabos e soldados, também são investigados por participação direta ou apoio operacional nos crimes.
Segundo a decisão, o grupo teria atuado em conjunto em atividades como monitoramento das vítimas, transporte, execução e destruição de provas.

Medidas cautelares

Além das prisões preventivas, a Justiça determinou:

• Afastamento imediato das funções públicas;
• Suspensão do porte e da posse de armas;
• Proibição de acesso a unidades policiais;
• Proibição de contato com sobreviventes, familiares das vítimas e investigadores.

Um outro policial investigado no caso teve apenas medidas cautelares impostas, sem decretação de prisão.
Defesa e posicionamento da PM

O advogado Paulo Roberto, responsável pela defesa de parte dos militares, informou que ainda não teve acesso integral à decisão judicial.
“Tão logo a gente tenha conhecimento, teremos condições de emitir um parecer acerca da situação”, declarou.

Em nota, a Polícia Militar do Tocantins afirmou que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da corporação e presta apoio institucional ao cumprimento das determinações judiciais.

A PM destacou ainda que não compactua com desvios de conduta e reafirmou compromisso com a legalidade, ética, disciplina e transparência institucional, ressaltando que os fatos seguem sob investigação e que os envolvidos têm direito ao contraditório e à ampla defesa.

Veja a íntegra da nota da PM

A Polícia Militar do Tocantins informa que tomou conhecimento da decisão judicial que determinou o cumprimento de medidas cautelares em desfavor de policiais militares, incluindo mandados de prisão preventiva e medida de afastamento das funções públicas, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Civil do Estado do Tocantins.

A Corporação esclarece que acompanha o caso por meio da Corregedoria-Geral da PMTO, prestando o apoio institucional necessário ao cumprimento das determinações judiciais e às autoridades responsáveis pela investigação.

A Polícia Militar do Tocantins reafirma que não compactua com quaisquer desvios de conduta praticados por seus integrantes, mantendo o compromisso permanente com a legalidade, a ética, a disciplina e a transparência institucional.

Ressalta-se que os fatos são objeto de apuração pelos órgãos competentes, sendo assegurados aos envolvidos o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa, conforme prevê a legislação vigente.

A Polícia Militar do Tocantins seguirá colaborando com as instituições responsáveis, reafirmando seu compromisso com a preservação da ordem pública, da credibilidade institucional e da confiança da sociedade tocantinense.

Íntegra da nota da Casa Civil

A Casa Militar informa que tomou conhecimento nesta sexta-feira, 8, da decisão judicial que determinou o cumprimento de medidas cautelares em desfavor do policial militar, servidor do órgão.


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