UHE Monte Santo: o preço do silêncio que Novo Acordo ainda vai pagar
A proximidade da construção da Usina Hidrelétrica Monte Santo, no Rio Sono, em Novo Acordo, escancara mais uma vez um velho roteiro conhecido no Tocantins: o da promessa de desenvolvimento que chega rápida, seduz, e depois cobra caro, caro demais. A obra teve, recentemente, sua Licença Prévia renovada e falta pouco para começar, apenas a Licença de Instalação, que permite o início das obras.
A renovação da Licença Prévia pelo Naturatins levanta um questionamento inevitável: como se autoriza um empreendimento desse porte com base em estudos feitos há mais de uma década? Em um mundo que muda em ritmo acelerado, insistir em dados ultrapassados não é apenas irresponsabilidade, é, no mínimo, um atestado de descaso com o futuro de toda uma região ou interesses sabe se lá de quem.
E, ainda assim, há quem comemore. Comerciantes, parte da população e até lideranças locais enxergam na usina uma oportunidade quase milagrosa. Parece que basta anunciar uma obra grande que, de repente, todos os problemas históricos desaparecem por decreto. A falta de gestão eficiente, o abandono do poder público e anos de estagnação são convenientemente esquecidos diante da promessa de movimento no comércio e de alguns empregos temporários.
A ironia é que muitos dos que hoje defendem o empreendimento como salvação já assistiram, ou ao menos ouviram, histórias de lugares onde esse mesmo “progresso” deixou um rastro bem diferente do prometido. Mas, ao que parece, a memória coletiva é curta quando a expectativa fala mais alto. Ou talvez seja mais confortável acreditar do que questionar.
A história recente do Tocantins e de regiões vizinhas deveria servir como alerta, não como propaganda. Lajeado, com a Usina Luiz Eduardo Magalhães, Filadélfia, onde até cemitério foi atingido e famílias inteiras perderam suas casas por conta da elevação do lençol freático, e Carolina, no Maranhão, com a Usina de Estreito, são exemplos claros de que o desenvolvimento prometido nem sempre chega, e quando chega, cobra um preço que poucos estavam dispostos a pagar.
A conta sempre vem. E ela não vem leve.
Ela chega com juros e multas, mais pesados que qualquer agiota, em alguns acasos, chega até matar. E, diferente de dívidas financeiras, essa cobrança não permite negociação. São danos irreparáveis ao meio ambiente, impactos sociais profundos, pressão sobre a saúde pública, que já mostrou fragilidade em Novo Acordo, onde, não faz muito tempo, faltava até medicamento básico de R$ 7, além do aumento da violência e da desestruturação social que costuma acompanhar grandes obras.
Mesmo assim, o entusiasmo de alguns segue firme, quase como se fosse possível escolher apenas os benefícios e ignorar as consequências. Como se desenvolvimento viesse em versão editada, sem efeitos colaterais.
E enquanto tudo isso se desenha, o silêncio impera.
O microfone está nas mãos de quem deveria questionar, fiscalizar e proteger. Mas o som que ecoa vem, em sua maioria, daqueles que, por necessidade ou conveniência, preferem acreditar em um futuro melhor, mesmo que ele seja passageiro, incerto ou simplesmente inexistente.
Talvez o mais doloroso de tudo seja assistir, quase sem resistência, à ameaça sobre um rio que não é apenas água correndo. É vida. É um dos maiores canais de desova de peixes da bacia Tocantins-Araguaia. É abrigo de espécies raras, como o pato-mergulhão. É patrimônio natural que deveria ser defendido com firmeza, e não tratado como obstáculo ao “progresso”.
E há um detalhe que torna tudo ainda mais difícil de aceitar: o próprio Governo do Tocantins já reconheceu em estudos divulgados em 2018, o potencial da região para geração de energia limpa por meio de fontes eólica e solar. Alternativas mais sustentáveis, menos agressivas e alinhadas com o futuro energético do mundo seguem ali, disponíveis, mas aparentemente menos interessantes do que repetir um modelo antigo e já tão questionado mundo a fora.
Mas, mais uma vez, opta-se pelo caminho mais curto, e possivelmente o mais destrutivo.
Novo Acordo ainda pode não sentir os efeitos. Mas eles virão.
Porque, no fim, a conta sempre chega. E, quando chegar, talvez já seja tarde demais até para fingir surpresa.