Wanderlei pariu uma nova Janad, só que a de 2024; derrota de Dorinha expõe os limites da força política do governador

Por Dermival Pereira em 26/10/2026 07:49 - Atualizado em 26/10/2026 09:51
COLUNAS
Wanderlei pariu uma nova Janad, só que a de 2024; derrota de Dorinha expõe os limites da força política do governador
Foto: web/Divulgação


Wanderlei Barbosa pariu uma nova Janad, só que agora em versão 2026. Assim como aconteceu com Janad Valcari na eleição para prefeita de Palmas, em 2024, o governador apostou suas fichas em uma candidata e terminou derrotado. Desta vez, a escolhida foi a senadora Professora Dorinha Seabra (União Brasil), que perdeu para Vicentinho Júnior (PSDB) neste domingo, 25.

Os números são contundentes. Dorinha saiu de 386.260 votos no primeiro turno para 309.076 no segundo, uma perda de 77.184 votos, ou 19,98%. Vicentinho fez o caminho inverso: cresceu 50,75%, passando de 372.848 para 562.083 votos. Terminou eleito com 253.007 votos de vantagem. A pergunta é inevitável: onde foi parar a força eleitoral que os aliados atribuíam a Wanderlei?

A ironia é ainda maior: Vicentinho Júnior pretendia disputar uma vaga no Senado dentro do mesmo grupo político, mas acabou escanteado nas articulações e mudou de rota, chegando ao governo. E não foi o único. Amélio Cayres (MDB), seu vice na chapa vencedora, também queria disputar o Governo do Tocantins, mas ficou fora dos planos do grupo de Wanderlei Barbosa. Já Laurez Moreira, vice-governador que concorreu ao Palácio Araguaia nestas eleições, tinha rompido com o projeto governista muito antes de decidir ser candidato e, no 2º turno, declarou apoio a Vicentinho. No fim, o grupo que tentou definir quem teria espaço na disputa viu dois nomes que ficaram fora de seu projeto original contribuírem para a derrota de Dorinha.

Cadê os 61% de aprovação?

Acreditar que o governo Wanderlei Barbosa chegou a 61% de aprovação e, ainda assim, não conseguiu transferir essa popularidade para as urnas é conversa para inglês ver. Basta olhar para o que acontece na regulação da saúde e no HGP, e observar a situação da segurança pública em municípios que sequer contam com uma base da Polícia Militar para desconfiar de números tão otimistas. Para mim, esses índices estavam longe de retratar a realidade vivida por parte da população tocantinense.

Como acreditar em tamanha aprovação enquanto a saúde pública acumula problemas, a segurança preocupa moradores e milhões de reais são destinados a shows e eventos? Não se trata de negar eventuais avanços da gestão, mas de questionar a distância entre os números divulgados e os problemas enfrentados diariamente pelos cidadãos.

A derrota de Dorinha não prova, por si só, que a pesquisa estava errada, até porque aprovação de governo não é a mesma coisa que intenção de voto. Mas deixa uma pergunta incômoda: se toda essa popularidade realmente existia, por que não foi suficiente para ajudar a candidata escolhida pelo governador a vencer a eleição?

No fim, a política tem dessas coisas: pesquisas alimentam discursos, aliados comemoram números e governantes acreditam na própria popularidade. Mas, quando as urnas são abertas, não há pesquisa, palanque ou propaganda que consiga votar no lugar do eleitor. E o resultado de domingo mostrou que o suposto capital político de Wanderlei tinha limites bem mais estreitos do que alguns imaginavam.

A lição de Janad

Em 2024, Wanderlei apoiou Janad Valcari na disputa pela Prefeitura de Palmas. Ela chegou ao segundo turno, mas perdeu para Eduardo Siqueira Campos. Agora, em 2026, Dorinha também não conseguiu transformar o apoio do governador em vitória.

Janad, entretanto, mostrou que uma derrota não encerra uma trajetória. Na eleição deste ano, conquistou 99.026 votos e tornou-se a deputada federal mais votada da história do Tocantins. Construiu uma votação expressiva para a Câmara dos Deputados, demonstrando que possui capital eleitoral próprio, que não pode ser atribuído automaticamente ao governador.

A comparação não significa que as duas campanhas sejam idênticas. Mas expõe uma questão recorrente: o apoio de Wanderlei ajuda a montar palanques, reunir lideranças e organizar alianças. Não garante que o eleitor acompanhe a escolha do governador.

O mapa das urnas

Em Palmas, Araguaína, Gurupi e Porto Nacional, Vicentinho terminou o segundo turno à frente de Dorinha. Em Gurupi e Palmas, onde a senadora havia vencido no primeiro turno, o adversário conseguiu virar o resultado. Em Porto Nacional, a vantagem de Vicentinho também foi expressiva.

O resultado mostra que a campanha governista não conseguiu consolidar a vantagem que esperava, nem mesmo com uma ampla articulação política. A escolha do vice, a associação com o bolsonarismo e o distanciamento de aliados são fatores que merecem análise, embora não expliquem isoladamente a derrota.

O santo não fez o milagre

Em junho, escrevi sobre o peso ambíguo do apoio de Wanderlei à candidatura de Dorinha: o “santo” da influência política poderia existir, mas o milagre eleitoral nem sempre acontecia.

Agora, as urnas deram uma resposta. Wanderlei apoiou Janad, que perdeu em Palmas. Depois apostou em Dorinha, derrotada na disputa pelo governo. Enquanto isso, Janad conseguiu se eleger deputada federal, e Vicentinho, que pretendia outro caminho, chegou ao Palácio Araguaia.

Não é o fim da força política do governador, mas é um recado que não pode ser ignorado. O eleitor não é patrimônio de partido, governador ou grupo político. Pode receber benefícios, reconhecer realizações e até aprovar uma gestão, mas continua livre para escolher.

Wanderlei pode indicar candidatos, vices, montar palanques e reunir aliados. O que não pode é escolher também o resultado das urnas. Esse poder continua nas mãos do eleitor — e, neste domingo, ele decidiu não seguir o roteiro do Palácio Araguaia.

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