Entre UPAs e omissão: regulação da saúde vira sentença de morte no Tocantins

Por Dermival Pereira em 29/12/2025 09:14 - Atualizado em 29/12/2025 10:44
COLUNAS
Entre UPAs e omissão: regulação da saúde vira sentença de morte no Tocantins
Foto: Divulgação/Governo do Tocantins

Já escrevi sobre isso antes e repito, sem medo das palavras: o sistema de regulação adotado pela Saúde do Governo do Tocantins chega a ser criminoso, doloso. Só não vê quem não quer. Trata-se de um modelo que tem tirado das pessoas até a dignidade na hora de morrer, em um país onde o cidadão só conhece o Estado na hora de pagar impostos, dinheiro que, muitas vezes, vira palco, shows milionários e obras mal explicadas. São os mesmos políticos que você, leitor, costuma aplaudir e, por eles, xingar quem mostra tais práticas.


Faço aqui um registro necessário: tenho profundo respeito por enfermeiros, técnicos, médicos e todos os profissionais da saúde que lutam diariamente em condições precárias. Mas isso não me impede de dizer o que penso. Para mim, o médico que regula um paciente com câncer em estado terminal ou com princípio de infarto, do interior do Tocantins para uma UPA, em Palmas, dentro desse maldito sistema de regulação do Governo do Tocantins (o mesmo governo dos shows de milhões), sabendo que aquela unidade não dispõe dos recursos necessários para salvar ou, ao menos, aliviar o sofrimento do paciente, deveria sim ser responsabilizado criminalmente.


Na prática, essas pessoas são mandadas para morrer. Morrem na UPA, morrem no caminho, morrem sem dignidade, sem a assistência mínima que o quadro clínico exige. Isso não é teoria. Vivi essa agonia. Aconteceu com minha mãe, em Novo Acordo, há cerca de um ano. Com fortes dores no peito, suspeita clara de infarto, segundo o próprio médico que a atendeu e a regulou para a UPA Sul, em Palmas. Eu me recusei a levá-la para lá e, por isso, queriam que eu assinasse um termo me responsabilizando por ter decidido levá-la para um hospital particular, caso ela morresse no caminho. Só fui liberado depois de exigir que chamassem a polícia.


O resultado? Corremos para a rede particular. Não porque somos ricos, mas por uma simples questão de sobrevivência. Consulta de R$ 600, exames que variam de R$ 500 a R$ 2.000 e medicamentos que passam dos R$ 300,00. Tudo isso já pago pelo contribuinte e disponível no HGP. Mas não. O sistema empurra o paciente para uma UPA onde falta remédio, falta comida, falta estrutura, falta quase tudo. Um absurdo.


De quem criou esse sistema de regulação no Tocantins, eu, e acredito que mais um monte de gente, já não espera absolutamente nada. Mas de quem estudou anos para se tornar médico, profissão que carrega prestígio e uma enorme responsabilidade social, eu espero mais. Muito mais. Se fosse comigo, mandaria o paciente para o HGP. Se não recebessem, o problema seria da gestão, mas a minha parte eu teria feito.


Outro ponto revoltante é a forma cínica como o governo trata esses casos, via Secom. Descumpre decisões judiciais, distorce fatos e mente quando questionado sobre por que pacientes morrem antes de serem chamados para consulta ou tratamento. Aí surge o discurso pronto: “determinados quadros clínicos não precisam de regulação”. Mentira. Passam, sim, primeiro nas USFs, de onde são regulados para consulta. Se o quadro for grave, eles mandam para as UPAs, onde ficam aguardando regulação para o HGP ou morrem ali mesmo.


A realidade é dura, cruel e conhecida por quem vive o SUS no Tocantins: muitos pacientes morrem sem tratamento, sem assistência e sem dignidade. E enquanto isso, o governo faz propaganda, banca eventos milionários e finge que está tudo funcionando.


Não está. E quem cala diante disso também é parte do problema.

Comentários (0)