Gabinete à deriva no Tocantins: “O vice de hoje é o adversário de amanhã”
Se o Tocantins fosse uma série, o episódio da semana se chamaria: “Despejo no Palácio: a saga continua”. O roteiro é conhecido, os personagens são reincidentes e o enredo, infelizmente, previsível. A bola da vez é a transferência do gabinete do vice-governador Laurez Moreira do Palácio Araguaia para um prédio alugado a 1,5 km de distância, na quadra 104 Norte, uma mudança que ganhou, com justiça poética, o apelido de “despejo”.
Oficialmente, trata-se de uma decisão administrativa. Extraoficialmente, e realisticamente, é mais um capítulo da novela política tocantinense, onde vices e titulares raramente dividem algo além do mesmo contracheque.
A última gestão que conseguiu, contra todas as probabilidades históricas, manter titular e vice unidos do início ao fim foi o último governo de Marcelo Miranda, com Cláudia Lelis como vice. Mesmo instado por aliados a “escantear” Cláudia, Miranda chegou a declarar publicamente que ela tinha lugar cativo ao seu lado. Cláudia e seu partido também se mantiveram leais até o fim — um fim abrupto, é verdade,
selado por decisão da Justiça, que cassou a chapa. De lá para cá, a coisa simplesmente desandou.
A relação entre Wanderlei Barbosa e Laurez Moreira nunca foi exatamente um conto de fadas. Mas o caldo entornou de vez após o afastamento e retorno do governador, quando as rusgas privadas migraram para o palco público, com acusações mútuas e declarações nada sutis. O distanciamento, aliás, começou cedo, nos primeiros meses de gestão, o que no Tocantins é quase uma tradição institucional.
E não se trata de novidade. O histórico do Estado é generoso em exemplos de vice-governadores que começam como aliados e terminam como opositores — às vezes declarados, às vezes ressentidos, quase sempre barulhentos. Foi assim com João Oliveira quando Siqueira Campos renunciou, mas o embate não foi com o titular e sim com a então senadora Kátia Abreu, que não queria que ele renunciasse ao cargo. Foi assim com Wanderlei e Mauro Carlesse, que também se distanciaram e até hoje trocam farpas públicas, como quem troca cartões de Natal… ao contrário.
Kátia Abreu, aliás, é personagem recorrente nessa trama. Em seu último governo, rompeu com Marcelo Miranda logo nos primeiros dias. O estopim foi ainda na campanha, quando o então vice indicado,
Marcelo Lelis, foi barrado na Justiça e indicou a esposa, hoje deputada Cláudia Lelis. Kátia queria indicar um dos filhos, mas como a vaga era do partido, o PV, não houve acordo. O racha veio rápido, seguido por disputas por espaços nas secretarias e culminando no rompimento definitivo. Final previsível, mas com muitos atos intermediários.
Agora, em novo papel, Kátia surge como aliada de Laurez e opositora de Wanderlei. A ex-senadora foi derrotada nas urnas por Dorinha Seabra, apoiada pelo governador, e tudo indica que a derrota ainda está atravessada na garganta, não exatamente em silêncio. O que poderia ser uma divergência política legítima rapidamente escorregou para o terreno da baixaria, com acusações públicas mútuas que pouco contribuem para o debate e muito para o desgaste institucional.
O episódio do “despejo” é apenas mais um símbolo dessa política marcada por traições, ressentimentos, acusações de conspirações, articulações para quedas de governos e — por que não? — egos que parecem sempre maiores que os gabinetes.
Há ainda um detalhe irônico: quando Wanderlei, então vice de Carlesse, tornou-se governador, pesavam sobre ele acusações muito semelhantes às que hoje dirige a Laurez. A política, ao que tudo indica, não apenas se repete — ela se recicla, com o mesmo discurso, os mesmos métodos e, quase sempre, os mesmos protagonistas.
No fim das contas, o gabinete mudou de endereço, mas o problema continua exatamente no mesmo lugar: na cultura política de um Estado que parece mais interessado em guerras internas do que em entregar resultados à população. Enquanto isso, o cidadão observa, à distância, mais um episódio da série interminável chamada “O vice de hoje é o adversário de amanhã” — com temporadas longas, diálogos previsíveis e, infelizmente, poucas chances de cancelamento.