Jornalismo sob ataque: o preço de informar em ano eleitoral
Cobrir eleições no Brasil nunca foi simples. Mas, hoje a tarefa beira a via-crúcis profissional. O jornalista acorda para trabalhar sem saber se voltará apenas criticado, processado, ameaçado ou “cancelado” por alguém que leu meia linha, interpretou errado e se sentiu pessoalmente ofendido em nome da pátria, de Deus, do discurso eterno contra a fome, ou, claro, do algoritmo que decide quem deve ser odiado no dia.
O ambiente político do país tornou-se oficialmente explosivo. Não se pisa em ovos — pisa-se em granadas. A imprensa passou a viver sob suspeita permanente, atacada por todos os lados e culpada até pela previsão do tempo quando ela não agrada ao candidato de estimação. Se chove, é perseguição. Se faz sol, é manipulação.
Nesse cenário, o trabalho jornalístico deixou de ser avaliado pela apuração ou pela veracidade dos fatos. Hoje, ele é medido por quem consegue enxergar além do próprio umbigo ideológico, um público cada vez mais raro. Para os demais, jornalismo bom é aquele que confirma crenças. O resto é “lixo”, “vendido” ou “inimigo”.
Conduzir uma cobertura eleitoral no Brasil sem virar vítima da militância extremista virou um jogo de roleta. Não se sabe a hora nem a forma do ataque. Pode ser uma ameaça velada, um linchamento virtual, uma distorção grotesca do que foi dito ou escrito, ou o ataque clássico de quem nunca passou do raso — mas foi pago exatamente para isso. Interpretar mal virou profissão.
Com a internet a todo vapor e punições tímidas para crimes digitais, atacar jornalistas tornou-se atividade corriqueira. Extremistas de direita e de esquerda criaram um ambiente tão hostil que mais lembram torcidas organizadas travestidas de cidadãos politizados. Não querem debate, querem confronto. Não defendem ideias, defendem o caos, projetos de poder. A diferença é que, em vez de estádio, agora o palco é a democracia, e o alvo, quem ousa informar.
Defendo um jornalismo objetivo, apartidário e honesto. Aquele que incomoda todos os lados justamente por não servir a nenhum. Mas faço questão de criticar quem usa a profissão como balcão de negócios. Os especialistas no “paga que eu elogio” ou no “paga que eu me calo”. Isso não é jornalismo, é chantagem com crachá.
Entre a fúria dos militantes e os desvios éticos internos, o desafio da imprensa séria em ano eleitoral é imenso. Ainda assim, ela segue necessária. Porque alguém precisa insistir no óbvio: fatos importam, dados existem e opinião não substitui realidade, por mais likes que renda.
No Brasil atual, fazer jornalismo virou um ato de resistência. E quanto mais tentam desacreditar, atacar ou silenciar a imprensa, mais deixam claro o medo que sentem dela. Afinal, nada assusta mais o extremismo, quem engana e rouba o povo, do que a verdade bem apurada.