No Brasil, nada é seu — tudo é do governo; você só paga
No Brasil, a sensação de propriedade é apenas um detalhe psicológico, quase terapêutico. O brasileiro compra, paga, parcela, financia, quita… e continua devendo. Porque, na prática, nada é realmente seu. Nem o carro na garagem, nem a casa onde mora. Tudo pertence ao governo — e você apenas paga para usar, como quem assina um contrato vitalício sem direito a cancelamento.
Comecemos pelo automóvel. Ao comprar um carro novo, o cidadão descobre que entre 30% e 40% do valor final é imposto. Dependendo do modelo, da motorização e do estado, quase metade do carro não é carro — é tributo com rodas. Ainda assim, depois de pagar IPI, ICMS, PIS, Cofins e outros penduricalhos criativos, o veículo não descansa em paz: vem o IPVA, anual, religiosamente cobrado, como se o carro fosse um privilégio renovável concedido pelo Estado.
A casa segue o mesmo roteiro tragicômico. O brasileiro compra um imóvel acreditando ter conquistado algo sólido, definitivo, um patrimônio. Ilusão clássica. Todo ano chega o lembrete oficial de que a propriedade é apenas simbólica: o IPTU. Em geral, o imposto corresponde a algo entre 0,2% e 1,5% do valor do imóvel por ano, variando conforme o humor dos políticos responsáveis pela gestão de cada município.
Exemplo simples e didático:
• Valor venal do imóvel: R$ 300 mil
• Alíquota: 0,6%
• IPTU anual: R$ 1.800
Ou seja, o morador paga 0,6% do valor da própria casa todos os anos, apenas para continuar morando nela. Não é aluguel, mas lembra bastante. E se não pagar, aprende rapidamente, com multa, juros e ameaça de penhora, quem é o verdadeiro dono do imóvel.
E aqui vem a parte mais democrática do sistema. Nesse quesito, o Brasil finalmente alcançou a tão sonhada igualdade social, com exceção dos que sonegam. Pobres e ricos vivem lado a lado, em perfeita harmonia: ninguém tem nada. O pobre não tem porque nunca conseguiu comprar; o rico não tem porque, mesmo comprando, nunca termina de pagar ao governo. A diferença está apenas no valor do boleto e no conforto, que com a ajuda do bolso, cada um pode desfrutar. Mas, e posse? Essa continua sendo do Estado — sempre vigilante, sempre faminto.
No Brasil, a igualdade funciona quando o assunto é tirar. Do barraco à mansão, tudo pertence ao governo. O cidadão é apenas um ocupante temporário, autorizado a usar desde que esteja rigorosamente em dia com impostos, taxas, contribuições, adicionais, sobretaxas e qualquer nova criatividade arrecadatória lançada no Diário Oficial da semana. A única coisa verdadeiramente privada é a dívida — essa, sim, respeitada e preservada.
E tudo é repassado ao consumidor. Absolutamente tudo. Do espetinho da esquina à grande empresa, o imposto está embutido no preço do produto, na taxa do cartão, no serviço mais simples. O brasileiro não vê, mas paga. Não entende, mas paga. Reclama, mas paga. Sempre paga.
O mais trágico — e aqui a ironia quase se cansa — é saber para onde vai esse dinheiro. Trilhões arrecadados que raramente retornam em forma de serviços públicos dignos. Servem, isso sim, para bancar políticos de estimação de todos os espectros: esquerda, Centrão e direita, além de desvios, escândalos recorrentes, esquemas que se repetem com novos nomes, e uma engrenagem de privilégios que nunca entra em contingenciamento.
Some-se a isso os penduricalhos do Judiciário, os excessos do Executivo, tribunais abarrotados de auxílios criativos, emendas parlamentares mal explicadas e shows milionários em cidades sem saneamento básico, onde falta médico, sobra buraco e a escola mal tem merenda.
Enquanto isso, o cidadão enfrenta filas intermináveis na saúde, espera meses — às vezes anos — por consultas e exames e, não raramente, nem encontra dignidade na hora de morrer. O dinheiro existe, é arrecadado em volumes históricos, mas evapora antes de alcançar quem realmente paga a conta.
No Brasil, prevalece a lei da malandragem institucional, do engano oficializado e da mentira normalizada. Cobra-se como país rico, entrega-se como país pobre — e ainda se repete, com cara séria, que o problema é o cidadão que “não contribuiu o suficiente”.
Contribuir, aliás, é o que o brasileiro mais faz.
Receber de volta é que continua sendo um luxo.