Novo Acordo: quando a saúde fecha as portas e a gestão abre a câmera; grávida dá à luz em casa após encontrar USF fechada

Por Dermival Pereira em 21/06/2026 11:41 - Atualizado em 21/06/2026 14:15
POLÍTICA
Novo Acordo: quando a saúde fecha as portas e a gestão abre a câmera; grávida dá à luz em casa após encontrar USF fechada
Foto: Divulgação

Há fatos que falam por si só. E há fatos tão absurdos que nem precisariam de comentário. O que aconteceu em Novo Acordo neste fim de semana está entre eles.
Uma mulher grávida, moradora da zona rural, precisou percorrer uma verdadeira via-crúcis até dar à luz dentro da casa da própria avó, após procurar atendimento na Unidade de Saúde da Família (USF) da cidade e encontrar as portas fechadas.

Repito: fechadas.

E aqui estamos falando do único local de atendimento de saúde disponível no município. O hospital municipal, que deveria servir à população, continua preso a uma reforma interminável iniciada na gestão passada e que segue sem solução na atual administração. Enquanto isso, a população fica dependente exclusivamente da USF. Quando ela fecha, fecha junto o acesso à saúde.

Segundo informações que apurei, a gestante já vinha enfrentando dificuldades há dias. Dois dias antes do parto, ela procurou atendimento sentindo dores. Foi encaminhada para Palmas, onde recebeu avaliação médica e acabou retornando para Novo Acordo após a informação de que o bebê ainda demoraria para nascer.

Mas o bebê resolveu não esperar a burocracia.

Na madrugada de sexta-feira para sábado, já em uma fazenda na zona rural, as dores se intensificaram. A mulher retornou à cidade em busca de atendimento e encontrou a unidade fechada. Sem médico, sem enfermeiro, sem acolhimento. Restou seguir para a casa de familiares, onde entrou em trabalho de parto e deu à luz.

Somente depois a mãe e a criança foram encaminhadas pelo Samu para Palmas, onde permanecem internadas.

E aí surge a pergunta que ninguém da gestão parece disposto a responder: onde estavam os profissionais que deveriam estar de plantão?

Muito se fala sobre a ausência do guarda da unidade. Mas, cá pra nós, desde quando guarda é responsável por atender parturiente? Desde quando vigilante faz avaliação médica? Desde quando segurança encaminha paciente para maternidade?

Se houve falha do guarda, que ela seja apurada. Mas concentrar toda a discussão nele parece mais uma tentativa de criar um bode expiatório conveniente do que enfrentar o problema real.

O centro da questão está em outro lugar.

Havia equipe escalada para aquela madrugada? Se havia, onde estava?
Se não havia, quem autorizou deixar o único ponto de atendimento do município sem assistência?

São perguntas que precisam ser respondidas não pela imprensa, mas pela gestão municipal e, principalmente, pelos órgãos de fiscalização.

No dia seguinte ao ocorrido, o prefeito Mateus Coelho apareceu em frente à unidade prometendo providências. Convenhamos, essa cena já é conhecida pelos moradores de Novo Acordo.

Foi assim quando um corpo foi desenterrado no cemitério municipal. Na época, também foram anunciadas medidas rigorosas, investigações e providências.


O resultado?

Até poucos dias atrás, segundo relatos de moradores, o local seguia praticamente da mesma forma: sem câmeras de segurança, sem cerca elétrica e tomado pelo mato. A limpeza só teria ocorrido depois que um vídeo mostrando a situação ganhou repercussão.

Agora, novamente, a população assiste ao mesmo roteiro: problema, vídeo, repercussão, gravação oficial e promessa de providências.

A diferença é que desta vez não estamos falando de patrimônio público ou de um cemitério. Estamos falando de uma mãe e de uma criança que poderiam ter entrado para uma estatística trágica.

A pergunta inevitável é: será que o prefeito influencer, que encontra tempo para gravar vídeos sobre praticamente tudo, inclusive mosquito, não percebe a gravidade de uma cidade ficar sem atendimento justamente quando uma mulher em trabalho de parto procura ajuda?

Porque anunciar providências depois do ocorrido é fácil. Difícil é garantir que o atendimento exista antes da tragédia.

Mais difícil ainda é explicar por que uma cidade que encontra recursos para investir milhões em festas e shows de artistas que sequer figuram entre os mais tocados nas rádios continua incapaz de concluir seu hospital municipal ou assegurar o funcionamento ininterrupto da única unidade de saúde disponível.

E antes que alguém venha com a velha justificativa de que os recursos têm fontes diferentes, vale lembrar uma verdade simples: no final das contas, todo dinheiro público tem a mesma origem, o bolso do contribuinte.

E quem paga imposto não deveria precisar torcer para encontrar uma unidade de saúde aberta quando mais precisa dela. Muito menos dar à luz em casa porque o sistema simplesmente falhou.

O caso exige investigação séria. Exige respostas. Exige responsabilização. Porque saúde pública não pode funcionar na base da sorte.

E, em Novo Acordo, infelizmente, parece que é exatamente isso que está acontecendo.

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