Opinião: A deusa da Justiça ficou doida — e já não sabe para que lado olhar
Alguém avisa a deusa da Justiça para tirar a venda dos olhos. Ela já pode enxergar tudo. O problema agora é outro: coitada, ela não sabe mais para que lado olhar. Olha para a esquerda, aparece um ministro; vira para a direita, aparece outro; olha para o centro, encontra uma decisão e, quando pisca, já tem outra mandando desfazer a primeira. Desse jeito, até a balança da Justiça deve estar pedindo recontagem.
O STF, que deveria ser o lugar onde terminam as dúvidas, parece ter virado o lugar onde elas começam. Ministro tira, ministro coloca, ministro investiga, ministro julga, ministro pede vista e, no meio dessa confusão, o brasileiro tenta descobrir quem está jogando em qual time.
A prova mais recente veio nesta terça-feira (8). André Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal. Hoje (09/09), Flávio Dino, em outra decisão, mandou reconduzi-lo ao cargo. Mendonça tira, Dino coloca. Daqui a pouco, para assumir a PF, o sujeito vai precisar consultar a escalação dos juízes da Corte antes de bater o ponto.
E o problema não para aí. O STF enfrenta uma crise interna que mistura política, disputas de competência e uma coleção de episódios que levantam questionamentos sobre os limites da própria Corte.
No caso Master, aparecem Daniel Vorcaro, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, contratos milionários, escritório ligado à esposa de Moraes e negócios envolvendo Toffoli. Nada disso, evidentemente, significa condenação. Mas, convenhamos: é coincidência demais para o cidadão não levantar pelo menos uma sobrancelha.
O Supremo também passou a ser visto por parte da população como uma Corte dividida entre lulistas e bolsonaristas. E juiz, meus amigos, não deveria ter torcida organizada.
O problema é que o brasileiro comum quase nunca chega ao STF, se chegar não entra. Para muita gente, Justiça é fila, processo e espera. Para quem pode pagar bons escritórios, a conversa é outra. E quando esses escritórios têm relações familiares ou profissionais com ministros, a desconfiança aumenta.
Estamos falando de um dos poderes mais caros da República, cheio de privilégios e penduricalhos. E a pergunta que fica é simples: quanto custa essa Justiça e quanta confiança ela ainda entrega aos cidadão pagador de impostos?
Eu, particularmente, não acredito mais no STF. Não por ser lulista ou bolsonarista. Mas porque uma instituição que pretende estar acima de todos precisa também estar acima de qualquer suspeita.
E talvez o mais preocupante seja que a descrença no Judiciário já ultrapassou as fronteiras dos tribunais e ganhou militantes. Hoje, para muita gente, ministro bom é aquele que decide a favor do seu lado. Se a decisão agrada à esquerda, é “justiça”; se contraria, é “perseguição”. Se favorece a direita, é “imparcialidade”; se decide contra, pronto: “tem lado político”. Criamos uma espécie de torcida organizada da toga, em que o juiz só é imparcial quando concorda conosco. O problema é que, quando a preferência política passa a determinar quem é considerado justo ou injusto, a Justiça deixa de ser um valor e vira apenas mais uma disputa de torcida. E aí a coisa fica ainda mais perigosa: já não se discute a decisão pelo que ela diz, mas pelo lado de quem a tomou.
A deusa da Justiça pode até tirar a venda.
Só espero que, quando olhar para os lados, não precise perguntar quem é o dono da balança.