Opinião: o palco primeiro, o hospital depois, o que revelam as emendas dos deputados estaduais do Tocantins

Por Dermival Pereira em 08/07/2026 11:46 - Atualizado em 08/07/2026 12:54
POLÍTICA
Opinião: o palco primeiro, o hospital depois, o que revelam as emendas dos deputados estaduais do Tocantins
Imagem ilustrativa criada por IA

Em um estado onde faltam médicos, ambulâncias, delegacias, policiais, escolas estruturadas e estradas em condições mínimas de trafegabilidade, uma pergunta insiste em ecoar: quais são, afinal, as prioridades dos representantes do povo na Assembleia Legislativa do Tocantins?

Os números oficiais ajudam a responder.

Levantamento realizado no Portal da Transparência da Assembleia Legislativa do Tocantins por um pré-candidato e encaminhado à imprensa, mostra que, apenas entre 2025 e os primeiros meses de 2026, os deputados estaduais destinaram R$ 187 milhões em emendas parlamentares para eventos, shows, turismo e cultura. Um absurdooo!...

O valor representa quase 40% de todas as emendas movimentadas no período e supera os recursos destinados à saúde, à infraestrutura e à educação. Enquanto shows receberam R$ 187 milhões, a saúde ficou com R$ 108,4 milhões, a infraestrutura com R$ 67,4 milhões e a educação com apenas R$ 11 milhões.

Quando esses números são somados aos investimentos realizados diretamente pelo Governo do Tocantins em festas, eventos esportivos, religiosos e apresentações artísticas, o total ultrapassa R$ 430 milhões em apenas dois anos e dez meses.

E os questionamentos não se limitam aos valores. Em alguns casos registrados no Tocantins, emendas parlamentares foram destinadas à contratação de shows de artistas que possuem vínculo familiar com o próprio autor da emenda, situação que, embora deva ser analisada à luz da legislação e das circunstâncias de cada caso, naturalmente desperta debates sobre conflito de interesses e a observância dos princípios da impessoalidade e da moralidade na administração pública.

Em outro episódio recente, uma prefeitura contratou, com recursos públicos, um show por R$ 50 mil de uma dupla em que um dos artistas é apontado como primo do prefeito. O cantor teria apresentado apenas duas músicas, enquanto apresentações semelhantes costumam ser contratadas por valores significativamente inferiores, estimados em menos de R$ 5 mil. Casos como esses reforçam a necessidade de transparência, fiscalização e controle rigoroso sobre a aplicação do dinheiro público.


É um volume expressivo de dinheiro público.

Não se trata de demonizar a cultura, o entretenimento ou o turismo. Eventos movimentam a economia, geram empregos temporários e atraem visitantes. O problema surge quando essa política de investimentos parece caminhar em sentido contrário às necessidades mais urgentes da população.

No Tocantins, ainda existem municípios onde cidadãos percorrem dezenas de quilômetros em busca de atendimento médico. Há localidades sem delegacia de Polícia Civil, sem base permanente da Polícia Militar, com escolas necessitando de reformas e estradas vicinais praticamente intransitáveis. Há cidades onde a precariedade da saúde já produziu episódios dramáticos, como o de uma gestante que deu à luz em casa após encontrar a unidade de saúde fechada na cidade de Novo Acordo.

Diante dessa realidade, é inevitável perguntar: por que há recursos para custear cachês de centenas de milhares de reais para um único show, mas faltam investimentos para manter uma unidade básica de saúde funcionando? Por que milhões são destinados a festas enquanto a educação recebe uma parcela significativamente menor? Por que um palco se torna prioridade diante de problemas estruturais que afetam diariamente milhares de tocantinenses?

Essas perguntas ganham ainda mais relevância diante do histórico recente do estado. O Tocantins já assistiu a um dos maiores escândalos envolvendo recursos públicos destinados por meio de emendas parlamentares: o caso das cestas básicas, investigação conduzida pela Polícia Federal que resultou no afastamento do governador e teve vários deputados estaduais entre os investigados. Evidentemente, não se pode estabelecer qualquer relação entre aquele episódio e as atuais emendas destinadas a eventos, pois são situações distintas. No entanto, o precedente reforça a importância de transparência, fiscalização e controle rigoroso sobre a aplicação do dinheiro público.

Emendas parlamentares são instrumentos legítimos e importantes. Elas permitem que deputados levem recursos às demandas dos municípios que representam. O debate não está na legalidade do mecanismo, mas na escolha das prioridades.

Toda decisão orçamentária revela uma escala de valores. Quando quase R$ 187 milhões são direcionados a shows, festas e eventos em um período em que hospitais enfrentam dificuldades, escolas carecem de investimentos e a infraestrutura permanece deficiente em diversas regiões, é natural que a sociedade questione se essa distribuição atende ao interesse público da forma mais adequada.

O dinheiro público é finito. Cada real destinado a uma finalidade deixa de ser aplicado em outra. Essa é uma escolha política, e escolhas políticas devem estar abertas ao escrutínio da população. Afinal, uma festa dura uma noite. Uma escola reformada transforma gerações. Um posto de saúde funcionando salva vidas. Uma estrada recuperada impulsiona a economia. Uma delegacia equipada fortalece a segurança.

O debate, portanto, não é contra a cultura e o turismo nem contra os eventos. É sobre prioridades. E os números disponíveis no próprio Portal da Transparência mostram que essa discussão precisa ser feita com seriedade, responsabilidade e, sobretudo, respeito ao contribuinte, que financia cada uma dessas escolhas.

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