Tocantins: poderes caros, mãos cansadas e um cidadão no limite
Já tentei acreditar. Mais de uma vez, e com esforço. Mas o sistema, esse tripé solenemente chamado de Executivo, Legislativo e Judiciário, parece ter sido desenhado não para sustentar a democracia, mas para sugar o cidadão até a última gota de paciência e imposto. São poderes caros, escandalosamente caros, que se alimentam do dinheiro público com a voracidade de quem promete mundos e, na prática, entrega migalhas. Quando entrega. Na maior parte do tempo, entrega narrativas.
Confesso: ando enojado. Não é raiva juvenil nem birra ideológica, é cansaço crônico. O Executivo governa, governa… e quando a conta chega, nunca é para quem governa. O Legislativo legisla, legisla — quase sempre em benefício próprio — com uma criatividade que faria inveja a roteiristas de humor. Já o Judiciário, esse guardião da lei, frequentemente parece ser guardião mesmo é dos próprios privilégios. Tudo dentro da “legalidade”, claro. Quando a lei atrapalha, muda-se a lei. Democracia versão premium.
Mas não sejamos hipócritas: o cidadão também faz parte desse espetáculo. Mesmo que muitos prefiram posar de vítimas inocentes, participa sim. Participa quando vota em políticos com histórico de reputação tão manchado que nem lavagem a seco resolve. Participa quando insiste em eleger famílias que nunca trabalharam fora da política — e que, curiosamente, ficaram ricas exatamente ali, no serviço público, onde o salário oficial jamais explicaria tanto patrimônio. Participa quando vende o futuro por um favor, um emprego temporário, um cargo comissionado ou um santinho plastificado.
Meu desânimo vira indignação quando olho para o Tocantins. Um estado jovem no papel, mas velho de vícios. Governadores que vão e vêm como se o Palácio fosse um ponto de ônibus. Alguns saem pela porta da frente, outros pela porta do fundo — acompanhados de investigações, processos e silêncio constrangedor. Escândalos que se repetem na Assembleia Legislativa como episódios de uma série ruim, daquelas que ninguém aguenta mais, mas que continuam renovadas temporada após temporada.
E então veio a pandemia da Covid-19, um dos períodos mais trágicos da história recente da humanidade. Eu mesmo passei por maus momentos. Gente passando fome, desempregada, enterrando parentes. E, segundo investigações da Polícia Federal, houve quem se apropriasse de dinheiro público destinado à compra de comida. Sim, comida. Para quem não tinha o que comer. Nesse cenário vergonhoso, aparecem nomes conhecidos: o atual governador, então vice à época, deputados estaduais e assessores. Um enredo que mistura miséria humana com cinismo institucional.
O mais revoltante? Saber que grande parte dessa turma — se não toda — que puder e quiser disputar novos mandatos provavelmente será reeleita. O eleitor, sempre ele, reincidente. No Tocantins, errar é humano; insistir virou política pública.
Meu descrédito também passa pelo Judiciário tocantinense. Um poder que, nos últimos anos, conseguiu o feito nada honroso de acumular um número exorbitante de juízes e desembargadores afastados por suspeitas de crimes diversos. E, como se isso não fosse suficiente para constranger qualquer democracia minimamente saudável, o mesmo Judiciário agora amplia sua estrutura. Serão mais oito cadeiras: uma por vacância e sete criadas pela chamada “expansão”, prevista na Lei Complementar Estadual nº 153/2024, que elevou o número de membros do Tribunal de Justiça do Tocantins de 12 para 20.
Mais cadeiras, mais salários, mais auxílios, mais prédios, mais estrutura. Mais do mesmo. A pergunta, quase ingênua, insiste: isso vai entregar mais Justiça ao cidadão comum? Ou apenas mais conforto institucional para quem já vive muito acima da realidade de quem paga essa conta com suor, imposto e silêncio?
Talvez este texto soe ácido demais. Talvez soe irônico, amargo ou até engraçado — daquele riso nervoso que surge quando a normalidade já morreu faz tempo. Não é falta de amor pelo Tocantins. É exatamente o contrário. É cansaço de ver um estado com potencial gigantesco ser administrado por práticas pequenas, repetidas e toleradas.
Porque, no fim das contas, o sistema só é tão ruim quanto aquilo que a sociedade aceita. E, pelo visto, seguimos aceitando muito. Muito além do razoável.