Plano pago, espera grátis: a saúde que não atende no Tocantins
No Tocantins, adoecer virou Maze Runner: Correr ou Morrer em versão regional. Na trama, jovens são jogados num labirinto hostil, vigiados por verdugos invisíveis, obrigados a correr para sobreviver. Por aqui, o labirinto atende por hospitais públicos, filas infinitas e um sistema de regulação que transforma urgência em eternidade. Quem depende da rede pública sabe: a roleta gira devagar, a fila é longa e a resposta quase sempre chega tarde demais.
Mas o descaso não é exclusividade de quem não pode pagar. A conta também chega, pontualmente, para o servidor público estadual e seus dependentes, aqueles que veem o desconto do plano na folha e, ironicamente, continuam sem plano quando mais precisam. Porque pagar caro não significa ser atendido.
O Servir, vendido como rede de proteção, frequentemente falha no básico: consulta, exame, cirurgia. O resultado é conhecido. Orçamentos familiares sacrificados para fugir da espera eterna. Quem pode, paga de novo. Quem não pode, espera. Quem espera demais, sofre. Outros morrem. No filme, jovens “corredores” caem para criaturas do labirinto; aqui, criança, jovens e idosos caem para a demora, a falta de leito, a cirurgia adiada. O descaso é total e sem preconceito, registre-se.
E quando o servidor tenta usar o que já pagou, descobre que clínicas e hospitais especializados, cansados de atrasos e calotes, suspenderam o atendimento. O desfecho é cruel e democrático: o usuário do Servir cai no mesmo patamar de quem não tem para onde correr. Igualdade plena, no pior sentido possível. Os verdugos mudam de nome, mas cumprem o mesmo papel: burocracia, contingenciamento, prioridades invertidas.
Aqui, saúde virou prova de velocidade. É correr ou morrer. Mas correr para onde, se a porta está fechada? Difícil entender por que, num estado onde se paga mais de R$ 1 milhão por um único show em cidades que falta da água ao gaze para um curativo. Onde emendas parlamentares se distribuem aos montes, enquanto a saúde pública permanece numa UTI improvisada, com morte cerebral decretada. No labirinto do filme, havia um mapa; no nosso, nem isso.
O paradoxo é gritante. O orçamento encontra palco, luz e som. Não encontra gaze, soro e anestesia. A prioridade dança conforme a música, e o paciente que espere o bis. A plateia aplaude; o doente aguarda.
Enquanto isso, o Governo do Tocantins segue tratando a saúde como rodapé de planilha, algo que se ajusta depois. Só que “depois” não combina com dor, diagnóstico tardio, cirurgia adiada nem com pessoas com câncer esperando em Upas. Saúde não é evento. Não admite aplausos nem pirotecnia. Exige gestão, previsibilidade e respeito.
No fim, resta a ironia amarga. Paga-se para não esperar e espera-se mesmo pagando. A promessa de cuidado vira boleto quitado sem recibo de atendimento. E o cidadão, servidor ou não, aprende na prática que, no Tocantins, a fila é soberana. A pergunta permanece, como no labirinto. Se é correr ou morrer, quem define a largada?